Gotas de chuva batem contra a janela, como pequenos cristais sonoros. Passeiam-se pelo vidro, começam
lá em cima,
acabam, deslizando,
cá em baixo.
São pequenas gotas parecidas com lágrimas, como se nos dissessem que o ser humano não chora sozinho, que algures alguém chora connosco. Enfim, eu gosto da chuva. A chuva traz com ela uma melodia doce, tocando-a nos nossos vidros e dançando-a nas janelas. A chuva traz preguiça, a chuva traz reflexão, a chuva traz paz e traz tormento simultaneamente. A chuva é assim, um misto de sentimentos, de sensações, como se fosse um catálogo no qual pudéssemos escolher dormir, pensar, sentir dor, sentir preguiça, experimentar chocolate quente, dançar no chuva ou simplesmente ouvi-la. Também gosto do sol, mas a chuva traz algo de diferente, como se fosse enviada do coração de alguém para o nosso.
Enquanto esperei na chuva e ela me batia no corpo, pensei que nunca tinha realmente dançado à chuva, beijado na chuva, deixar a chuva bater-me naturalmente no rosto. A chuva caía e sentia em mim o vazio de ninguém me recolher dela e ao mesmo tempo a alegria de me deixar acolher por ela. A chuva batia em mim num misto de liberdade com o de frio, era confortavelmente desconfortável e estupidamente agradável.
Lembrei-me que o amor também é assim. É um desconforto que nos agrada, é um conforto que nos dói, é um incómodo desejado e um bem-estar desconfortável. O amor é também como a chuva. O amor tem melodia, bate nos nossos corações como as gotas nas janelas. Arrepia-nos de frio, abraça-nos de alegria. As pessoas gostam de sentir o amor fresco na pele, gostam de senti-lo deslizar nas suas mãos, como se fossem as nossas janelas no temporal.
Apetece-nos mergulhar a alma em preguiça, banhar o corpo com um cobertor quentinho, estampá-lo contra o sofá e deixar a chuva cantar para nós, trazendo a doce melodia da sua voz.
Bate leve, levemente, como quem chama por mim.
No sofá, os pensamentos caminham para mim. A preguiça vai enxugando as gotas que encharcaram o coração, numa chuva interior. Lá fora, a chuva continua a sua dança com as ruas, desliza pelas folhas das árvores, limpa as avenidas e algures um namorado protege a amada da chuva, algures uma criança abre o seu guarda-chuva aos bonequinhos, algures um pai abraça a sua filha para a proteger do frio. Algures, numa escola, eu espero no portão e me deixo acolher pela chuva, que canta para mim, numa melodia que me faz lembrar o amor, um amor que é como a chuva, escorre em mim num misto de sentimentos.